Claudioantunesboucinha's Blog

As Garças e o Arroio Bagé

Posted in estética das cidades by claudioantunesboucinha on 23 de janeiro de 2012

 

Claudio Antunes Boucinha1

Durante as festividades do Ano Novo de 2012, foi presenciado um espetáculo inusitado na noite bajeense: centenas de aves deslocando-se rapidamente nos céus de Bagé por causa da explosão dos fogos de artificio. Impiedosamente corridos de seus ninhos, as aves não sabiam para onde escapulir.

Aliás, na medida em que decorrem os anos, as facilidades em consumir certos produtos outrora raros, produzem fenômenos contemporâneos que quintuplicam os efeitos sobre a natureza e sobre as pessoas. Atualmente, não é uma bombinha, mas um show pirotécnico de impacto ambiental não quantificado.

Juntando essas festividades de fim de ano que devem ser julgadas pelos excessos de todos os tipos, com os ritmos, com os ciclos da natureza, qual deveria ser o resultado esperado? Uma ética que prescinde da responsabilidade adequada, pois o crime ambiental ocorreu, mas sem os devidos responsáveis. Nesse clima de irresponsabilidade, vai se deixando para as gerações futuras resolverem problemas que são criados pela geração atual. Mas não são todos que estão surdos, mudos e cegos ao arroio Bagé.

O registro da presença de animais silvestres ao longo do arroio Bagé, não é de agora. No entanto, os discursos são diferentes:

O descontentamento de muitos moradores das margens, a devasta da vegetação, em demasia, em alguns pontos, perda dos amparos nas margens, a dispersão da fauna e outras. (…) Logo após a máquina ter passado e colocado o lodo nas margens, veio a chuva e levou a terra, ainda não compactada, de volta ao leito do rio. O resultado foi o assoreamento de alguns pontos do rio que apresentavam até 3 metros de profundidade (presenciamos até as garças passeando sobre eles). Um deles, na ponte da rua Silvio da Silva Tavares, entre os quartéis. Temos também de registrar o desaparecimento2 de muitos animais aquáticos como capivaras, ratões e até cascudos, os resistentes ao esgoto poluente. (…).3

A bem da verdade existe4 vida no arroio, e não é pouca. Capinchos, lontras, maçaricos, biguás e diversas espécies de peixes.5

Os moradores contam que com frequência avistam capivaras e lontras nas águas da ponte. Uma denúncia levou a Polícia Ambiental ao local, que verificou a área e não constatou a presença dos animais, embora as pegadas ainda pudessem ser vistas. Élcio Cunha Cardoso, morador das proximidades, disse que já viu várias vezes as capivaras e lontras (animais carnívoros da família dos mustelídeos, assim como o furão). “São mansinhos e moram aí há bastante tempo6. De vez em quando eles aparecem como hoje7”, disse o morador. Dois patrulheiros da Polícia Ambiental, Aldair Saraiva e Vladimir Rosa, estiveram no local logo após a aparição dos animais. Saraiva diz que não há problema em que eles morem nas águas da ponte, pois este é seu habitat natural. “Só é necessário que a população tenha consciência e não judie dos animais”, ressalta. Moradores da região dizem que é comum que jovens e crianças provoquem os animais atirando pedras. Roni Barcelos, morador próximo da ponte, contabiliza que sejam seis lontras e dois capinchos. Sobre o sumiço dos animais com a intensa movimentação na ponte, Rosa explica que este tipo de animal sofre stress com aglomerações, o que pode ter feito com que eles tenham se reservado na água, não mais aparecendo no local.8

Causa estranheza alguém imaginar que somente em 2010 é que os animais silvestres resolveram aparecer no arroio Bagé:

O secretario de meio ambiente, Alexandre Mello, defende que o resultado da limpeza foi satisfatório. Foram retiradas 500 toneladas de lixo do arroio, inúmeros pneus e até mesmo sofás e fogões. Quanto a ocupação de áreas irregulares, o secretário argumenta que o trabalho de retirada destas famílias vai ser realizado e que ninguém mais vai ocupar áreas ribeirinhas. – Nunca nada havia sido feito pelo arroio Bagé, agora temos 6 km de arroio recuperados. O arroio Bagé recuperou sua vazão e biodiversidade. Hoje9 já encontramos lontras e capivaras naquela área, que está limpa.10

A presença de animais silvestres no arroio Bagé, precisa de uma certa contextualização, como “Zona Ciliar”, para que se possa discutir temas como o da “biodiversidade”:

Zonas Ciliares

As margens dos corpos hídricos possuem elevada importância ambiental, desempenhando diversas funções relacionadas com a proteção dos recursos hídricos e com a manutenção da biodiversidade. A vegetação que se estabelece ao longo dos corpos hídricos diminui a incorporação de sedimentos nas águas, além de auxiliar na fixação das margens e prevenir a sua erosão. Adicionalmente, as zonas ciliares são habitat de diversas espécies nativas da fauna e da flora, além de servir como corredores e abrigo para diversas outras espécies. A ocupação ou realização de intervenções nas zonas ciliares impedem a regeneração da vegetação nativa, impossibilitando o estabelecimento da vegetação ciliar e aumentando a erosão pelo transporte de partículas pela água, prejudicando a qualidade hídrica e levando ao assoreamento dos cursos de água. Além disso, a ausência de vegetação reduz a retenção de água, ocasionando no aumento da incidência de enchentes em períodos de chuva, e no agravamento da estiagem em períodos de seca. Ademais, a destruição das zonas ciliares contribui com a perda da biodiversidade, reduzindo a quantidade de habitats para a fauna e flora nativas. Por sua elevada importância, a proteção das margens dos corpos hídricos é contemplada nas legislações Federal (Código Florestal, Lei Federal n.º 4.771, de 15 de setembro de 1965) e Estadual (Código Florestal do Estado do Rio Grande do Sul,Lei Estadual nº 9.519, de 21 de janeiro de 1992), considerando-as áreas de preservação permanente. 11

Logo, a recuperação do arroio Bagé não passa por bravatas, mas por pesquisas efetivas sobre a fauna e flora da região, recolocando em outro patamar a discussão que, para muitos, ainda pertence ao campo da demagogia e do “ouvir dizer”.

1 Mestre em História do Brasil.

2 08/12/2010.

3GONÇALVES, Silvério. “O arroio Bagé por águas abaixo”. Ecoarte. 08/12/2010. http://folhadosulgaucho.com.br/?p=9&n=6481 .

4 16/10/2009.

5MARTINS, Cláudio. Citado por: FALCÃO, Cláudio. Arroio Bagé sofre com os esgotos urbanos. [22H:53MIN] 16/10/2009 . http://www.jornalminuano.com.br/noticia.php?id=43634 .

6 25/07/2007.

7 25/07/2007

8 Maritza Costa. [00H:28MIN]. 25/07/2007. “Lontras alvoroçam curiosos na ponte da Emílio Guilayn”. http://www.jornalminuano.com.br/noticia.php?id=17824&busca=1&palavra=lontras .

9 07/07/2010.

10 Simôni Costa. “Esperança na margem do arroio Bagé”. 07/07/2010.

http://www.folhadosulgaucho.com.br/?p=16&n=3091

11Texto obtido do DOC 0009/2007 da DAT. Citado por: DOC DAT-MA Nº 2800/2008. Ministério Público do Rio Grande do Sul. Divisão de Assessoramento Técnico. PARECER. DOCUMENTO DAT-MA Nº 2800/2008. UNIDADE DE ASSESSORAMENTO AMBIENTAL. GEOPROCESSAMENTO – BACIAS HIDROGRÁFICAS. PARA: Dr. Alexandre Sikinowski Saltz; Centro de Apoio Operacional de Defesa do Meio Ambiente. DE: Sérgio Alfredo Buffon; Geólogo, M. Eng. Colaboradores: Luciano Weber Scheeren, Engenheiro Florestal; Luiz Fernando de Souza, Biólogo, M.Sc.; Samuel Maynard Bernini, Acadêmico em Biologia; Leonardo Konrath da Silveira, Acadêmico em Biologia e Geologia. ASSUNTO: Estudo PRELIMINAR da Bacia Hidrográfica do Rio Negro, denominada de U080 na divisão hidrográfica oficial do Estado. Disponível em: http://www.mp.rs.gov.br/areas/paibh/arquivos/diagnostico_dat_bacias_hidrograficas_rio_negro.pdf .