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Estética das Cidades: Caminhando para o Céu – Sobre o Caminho e o Caminhar

Posted in estética das cidades by claudioantunesboucinha on 22 de outubro de 2013

Claudio Antunes Boucinha1

Lia Costa Carvalho, no seu blog, http://liafotografa.blogspot.no/2013/09/desenhourbano-167.html , imagem publicada pela autora, na segunda-feira, setembro 02, 2013, com o título “[desenho urbano] # 167”, revela um aspecto da paisagem urbana que poderia servir para meditação sobre a estética das cidades.

O desenho das calçadas e das ruas, com suas sinuosidades, como se fossem curvas de um rio, acompanham o caminhar dos transeuntes, caminhantes, mesmo que andem não necessariamente nas calçadas, rompendo com suposta ordem expressada na divisão entre a rua e a calçada. Num conjunto que expressa certa harmonia, a paisagem urbana expressa também estética, em que o ser e a geografia das cidades fazem parte de mesmo contexto, de mesmo pensamento. Muitas vezes, o ser é visto como oposição a cidade, como se a cidade fosse desumanizada. Será que a cidade é artificial? Ou seja, a cidade, como construção humana, serviria para um propósito anti-humano? Haveria desumanização da cidade? Esse aspecto supostamente não humano da cidade é passível de mudança? A cidade expressa estética, mas não expressa única estética. Nesse mosaico estético, nesse caleidoscópio urbano, o que deve ser valorizado e o que não deve? Enfim, o conteúdo supostamente artificial da cidade, em oposição a certo caminho natural ou da própria natureza, numa valoração que se afina com certo “naturalismo” ou “realismo”, em que a cidade vai supostamente contra a natureza, ou além da natureza, é defensável? Afinal, de que são feitas as cidades? As pedras das pavimentações das calçadas e das ruas apareceram ali por livre e espontânea vontade? É lógico que as pedras reproduzem história; não só pelas pedras em si mesmas, mas por toda a construção humana aplicada em cada uma dessas pedras. Logo, já não falamos somente de ruas e calçadas inertes, sem vida, repetitivas e monótonas; mas lugares de passagem, de passeios, de sentimentos, emoções, olhares, meditações, contemplação. Vamos olhar a calçada como se fosse o caminho para o céu, em que as marcas de Antônio Machado2, sugerem o significado do andar, da imediaticidade do movimento, da ausência de fórmulas, da pequenez humana, da infinitude do mundo, do desespero do mundo, da mutação, dos ciclos, da vida que se apresenta cada vez mais frutífera, em que o passado mora ao lado, deslocando-se com o presente e com o futuro caminhar:

Caminante, son tus huellas

el camino, y nada más;

caminante, no hay camino,

se hace camino al andar.

Al andar se hace camino,

y al volver la vista atrás

se ve la senda que nunca

se ha de volver a pisar.

Caminante, no hay camino,

sino estelas en la mar”.3

1 Mestre em História do Brasil.

2 Antonio Cipriano José María y Francisco de Santa Ana Machado Ruiz, conhecido como Antonio Machado (Sevilha, 26 dejulho de 1875 — †Collioure, França, 22 defevereiro de 1939) foi um poeta espanhol, pertencente ao Modernismo. AntonioMachado .

3 "Proverbios y cantares XXIX" [Proverbs and Songs 29], Campos de Castilla (1912); trans. Betty Jean Craige in Selected Poems of Antonio Machado (Louisiana State University Press, 1979). AntonioMachado

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