Claudioantunesboucinha's Blog

WILSON SIMONAL, ARTISTA DE “DIREITA”?

Posted in estética e música by claudioantunesboucinha on 1 de maio de 2011

 

Claudio Antunes Boucinha1.

A “Guerra Interna”

A memória social, vitimada, dicotômica, simplificada, fez seus “bodes expiatórios” 2. É todo o contexto histórico que poderá explicar um pouco algumas situações que Simonal viveu. Talvez Simonal não soubesse supostamente nada da “guerra interna”, depois da “Guerra Fria”, enfim, o totalitarismo no Brasil; mas, de alguma maneira, acabou participando dessa “guerra contra os comunistas”, de forma direta ou indiretamente. De forma semelhante, nos Estados Unidos, a Era McCarthy – o Macarthismo – , produto da Guerra Fria, também produziu inúmeras injustiças3.

O Discurso de Direita

Simonal declarava-se "de direita" 4: era legítima escolha de Simonal? Em contexto democrático, caberia análise se tais ideias e procedimentos de Simonal atentavam contra a Constituição Nacional. Mas, num contexto de “guerra interna”, a posição política de Simonal era outra coisa: significava o apoio ou indiferença ao extermínio da oposição, seja oposição democrática ou não. Agora, qual a profundidade, qual a dimensão desse discurso político na vida cotidiana de Simonal? Simonal, de fato, a sua maneira, também construiu carreira no meio “direitista”, afirmando “slogans” do sistema.

O ser “lúmpen proletariado”

O fato de Simonal ser alguém que veio do “lúmpen proletariado”, deslumbrado pelo poder, era outra entre tantas simplificações. Na verdade, caberia do ponto de vista da sociologia, avaliação do conceito de lúmpen proletariado. Florestan Fernandes sugeria uma visão positiva do lúmpen proletariado, referindo-se a sua própria condição social, um dos aspectos desse conceito:

“Fazendo o que me via forçado a fazer também era compelido a uma constante busca para vencer uma condição em que o lúmpen proletário (e não operário) definia os limites ou as fronteiras do que não era gente. (…) O mínimo que se pensava, sobre aquele tipo de gente, é que éramos ladrões ou imprestáveis!… O lúmpen proletário era, pois, a principal vítima de sua condição serviçal e de sua vassalagem à ordem estabelecida. (…) Seguindo a ótica atual, alguém poderia escrever: o lúmpen proletariado chega à Universidade de São Paulo. Todavia, não era o lúmpen proletariado que chegava lá; era eu, o filho de uma ex-lavadeira, que não diria para a cidade de São Paulo agora nós, como um célebre personagem de Balzac”. 5

Para uma visão negativa do lúmpen proletariado, Marx, que, além de estabelecer uma classificação social, questionava a disposição ética dessa camada social:

«A proleta miserável, o lúmpen proletariado, essa podridão passiva dos estratos inferiores da sociedade, é aqui e além, arrastada para a ação por uma revolução proletária, e pela sua situação estará mais disposta a deixar-se enredar em manobras reacionárias». 6 7

Na atualidade, alguns “marxistas” defendem a “necessidade da eliminação do lúmpen proletariado reacionário”. 8 Isto confirma a total falta de autocrítica de alguns pensadores, no Brasil. Vá lá que Marx tivesse má vontade com os supostos inclassificáveis ou desclassificados de sua época, o que demonstrava certa debilidade de seus escritos; agora, outra coisa é, depois de décadas, alguém pensar que a solução para um mendigo é a eliminação pura e simples, só pode explodir qualquer ética.

O Comportamento Ético

Mas Simonal, de maneira alguma pode ser circunscrito somente ao meio em que vingavam ideias totalitárias: seria outra simplificação. Simonal seria “indiferente” para com o totalitarismo, como muitos foram? A indiferença não parecia ser o comportamento cotidiano de Simonal. Simonal, simpático do totalitarismo, era minoria, do ponto de vista político, no meio artístico, francamente oposicionista? Sim, possivelmente, considerando o “esquecimento” de Simonal e a reconstrução da memória da cultura musical do país.

O Discurso Democrático

Se for verdade, dizia Winston Churchill, que "A democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos" [“Democracy is the worst form of government except from all those other forms that have been tried from time to time”] 9; também se sabe que uma suposta democracia pode mascarar severo autoritarismo; e que democracia não vive somente de discursos ou de frases bem feitas.

Bem Sucedido

Simonal tinha noção de toda essa construção histórica do pensamento de direita? Certamente que Simonal não tinha tantos conhecimentos para ser um teórico de “direita”. Mas, em algumas declarações que foram publicadas, o discurso da ordem estabelecida, do “Establishment”, era evidente a confiança que Simonal tinha no sistema em vigor. Era evidente que Simonal vangloriava-se de ter muito dinheiro, mulheres [loiras], carros de luxo e “vida boa” [Simonal era proprietário de, pelo menos, uma Mercedes10, valendo noventa milhões de cruzeiros; ao que parecia, Pelé, Athayde Patreze, Roberto Carlos, tinham também uma Mercedes]: gostava de fazer o tipo de negro bem sucedido, um grande cantor negro, inserido na indústria cultural brasileira e mundial; fazendo questão de diferenciar-se de outros negros, bem menos sucedidos que Simonal. Para Simonal, o sucesso batera a sua porta e não tinha do que reclamar: não fazia o discurso de “coitadinho”, “vítima”, ou apologia da pobreza. Agora, Simonal não vivia o preconceito de ser negro, no Brasil e no mundo? Claro que sim; Simonal compôs e cantou música específica sobre o tema: “Tributo a Martin Luther King”. E não era somente Simonal que se sentia bem dentro do Brasil: grande parte da classe média vivia o “milagre brasileiro” de forma intensa e esfuziante, comprando eletrodomésticos, especialmente a televisão. A “Shell” não patrocinou Simonal?

Tabu?

A ambição de Simonal era desmedida, não era legítima, era injusta? Até que ponto esse questionamento sobre a ambição de Simonal também não era preconceito? Os “de baixo” não podiam ambicionar “demais”, como interdição? Seria uma espécie de “tabu”, uma barreira psicológica, um tipo de policiamento moral inconsciente, em que o negro não podia ter ambição “desmedida”? É o senhor de engenho ainda reservando as frutas para si, criando tabus 11?

Acima da Lei?

Em que momento Simonal enveredou, transacionou, ultrapassou, transgrediu os limites para querer fazer justiça “com as próprias mãos”, colocando-se acima da lei, tal como o regime existente? Condenado, cumpriu pena simbólica, mas suficiente para condena-lo moralmente. Na rede que tramou, com suas próprias mãos, Simonal ficou preso, literalmente, e afundou 12. O homem e suas circunstâncias: Simonal, um grande artista, tragado por um emaranhado de circunstâncias lamentáveis? Simonal, por suposta ingenuidade, suposta “alienação”, suposta arrogância, teria errado? Quem sabe, Simonal julgava-se, supostamente, acima do bem e do mal? Simonal pagou caro demais pelos erros? O patrulhamento de Simonal, que se seguiu, fruto, talvez, do ciúme, inveja, quem sabe, da fraqueza humana de muitos outros artistas, foi implacável. Afinal, Simonal era um negro de nariz “empinado”, e muita gente, mesmo hoje, não tolerava tal comportamento: era intolerância ou não era? As questões étnicas não explicavam tudo na vida de Simonal: mas que tinha esses componentes, era evidente. Quanto a ser ingênuo, alienado, arrogante, prepotente, nada disso parece ser comprovado, de maneira contumaz, no comportamento de Simonal. Toda essa questão pretenda, talvez, inocentar Simonal da pior maneira possível: passar uma “borracha” no processo e prisão, e apagar tudo que aconteceu.

Sarah Vaughan

No final de 1970, antes dos acontecimentos fatídicos, Simonal fez um especial para TV onde cantou em dueto com a prestigiada cantora norte-americana Sarah Vaughan, uma das maiores cantoras de todos os tempos. Simonal, num inglês supostamente irrepreensível, num idioma que mal dominava, emocionou a todos. Ali, não era o Simonal suposto alcaguete do Regime Militar: era Simonal, um dos maiores cantores que o Brasil já viu 13.

O histórico dueto entre Wilson Simonal e Sarah Vaughan, durante um programa transmitido pela extinta TV Tupi, feito em setembro de 1970, quando Simonal estava no auge, rivalizando apenas – sem nenhum exagero – com o sucesso de Roberto Carlos. Na época, Simonal assinara um contrato milionário com a Shell, e quando a grande cantora de jazz Sarah Vaughan anunciou uma turnê pelo Brasil foi reservada uma data para um show com Wilson Simonal. Ricardo Alexandre, no seu livro "Nem Vem Que Não Tem", narra que Simonal estivera impossível naquele dia, conversava em inglês (quando não sabia falar bem o idioma) com Sarah, tranquilo e seguro, improvisava e brincava com a plateia. Numa das partes do vídeo postado acima, Simonal retira do bolso um papel amarrotado, como se fosse o roteiro de perguntas que fazia, em inglês e português, a "miss Sarah" (Como Simonal a chamava), que deveria apenas responder "yes" ou "no", o que gerava situações engraçadas quando as perguntas eram feitas em português e respondidas em inglês. Sarah Vaughan se divertia com as brincadeiras… Depois das brincadeiras, Simonal pede: "Miss Sarah, repeat with me: ‘vou deixar cair!’", trecho imediatamente repetido pela cantora, para delírio do público. Enfim, cantam, num dueto antológico, "The shadow of your smile", com Simonal absolutamente à vontade com uma das maiores estrelas do jazz em todos os tempos. Uma prova do seu inegável talento 14. O encontro com "Mrs. Vaughan", como Simonal a chamou durante a transmissão, incluiu uma dobradinha para "Happy Days", de Jimmy Custer. Após duetar com Simonal, a diva do jazz desenvolveu relação cada vez mais estreita com nosso país, o que resultou em álbuns como “I Love Brazil” (1977) e “Brazilian Romance” (1987). Como atenta biografia “Nem Vem Que Não Tem – A Vida e o Veneno de Wilson Simonal”, de Ricardo Alexandre, quando a cantora morreu, em 1990, os jornais brasileiros basicamente descartaram dos obituários a apresentação no programa da Tupi 15.

Estética

Qual o lugar de Simonal, do ponto de vista da estética? Aqui se adentra num ponto que antecede aos acontecimentos fatídicos da vida de Simonal: aos “debates” entre os “nacionalistas” e os “americanistas”; entre música “engajada” (“engagement”; “engagé”) e “música da Pilantragem”; embora tal dualidade, como já foi dito, não passasse de mais uma simplificação.

“ENGAGEMENT” era termo francês que traduzia o empenhamento político de um escritor ou de um intelectual. Historicamente, o conceito era uma herança do intelectual formado pelo iluminismo e pelo marxismo, porém foi Jean-Paul Sartre quem, no século XX, mais vivamente relançou o debate sobre o estatuto do intelectual “engagé”.16

Deve-se dizer, com todas as letras, que “música engajada” era apenas a maneira da época de se falar de diversas questões que envolviam a música brasileira, não necessariamente com o devido rigor conceitual que implicava a origem do termo “Engagement”; ou até mesmo referindo-se ao termo “Pilantragem”.

Passeata contra a Guitarra

“Jovem Guarda”, “MPB”, “Pilantragem”, no mesmo barco, discutindo, de forma enfática ou não, a música “estrangeira”, “alienígena”, “americana”:

“No ano de 1967, quem diria, Elis Regina liderou a passeata contra a guitarra elétrica e em defesa da Música Popular Brasileira. Um movimento infantil, ou mesmo “idiota”, como chegou a classificá-lo o jornalista Sérgio Cabral, do Pasquim e jurado do Festival da Canção de 1967. Ao lado de Elis, desfilaram nomes como Gilberto Gil (quem diria?), Edu Lobo e Jair Rodrigues. Caetano Veloso e Nara Leão não foram ao protesto. Caetano teria comentado que achava aquilo muito esquisito. Nara Leão teria respondido: – Esquisito, Caetano? Isso é um horror. Parece manifestação do Partido Integralista. É fascismo, mesmo!”. 17

“(…) Entre tantos apelos contra os militares, porém, houve um movimento no ano de 1967 que foi, no mínimo, curioso: a passeata contra a guitarra elétrica. Isso mesmo: uma passeata contra a “invasão” da guitarra elétrica na música brasileira. Descobri essa pérola no documentário “Uma noite em 67”, imperdível. (…) Gilberto Gil, meio desconfiado, também compareceu à marcha em defesa da MPB. Geraldo Vandré, Edu Lobo, Jair Rodrigues e muitos outros artistas que representavam a música brasileira à época (e até hoje) entoaram gritos contra a guitarra e a música norte-americana. (…) Caetano Veloso, amigo de Gil, conta no documentário que não foi à passeata, mas assistiu ao protesto ao lado de Nara Leão. A intenção era combater o imperialismo cultural norte-americano, um discurso meio brega nos dias de hoje, atribuído a uma esquerda meio delirante dentro de si mesma, que naquele tempo policiava a música brasileira com o mesmo afinco que lutava contra a ditadura. Essa patrulha contra a guitarra, aliás, mirou Caetano Veloso no Festival Internacional da Canção, em 1968. No livro “Cale-se”, o jornalista Caio Túlio Costa descreve a apresentação de Caetano no Tuca, teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. O cantor baiano apresentava a canção “É Proibido Proibir” carregada de guitarra elétrica, ao lado do grupo de rock “Os Mutantes”. Hoje, essa música é considerada uma das mais marcantes no protesto à ditadura, mas naquele dia foi vaiada efusivamente. Inconformado, Caetano interrompeu a apresentação e entoou um discurso contra o público: – “Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder? (…) São a mesma juventude que vão sempre, sempre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem. (…) Vocês estão por fora. Mas que juventude é essa?”. A tal passeata contra a guitarra elétrica se revela hoje um movimento infantil, bobalhão, como sugerem Caetano e o próprio Gil no documentário. Até mesmo “idiota”, como diz o jornalista Sérgio Cabral, jurado no Festival da Record de 1967. Resgatar essa história, no entanto, revela muita coisa sobre a música brasileira”. 18

“Passeata contra a ditadura, desemprego, pelas diretas todo mundo já ouviu falar, já foi, ou no mínimo já leu no jornal ou viu na TV. E passeata contra o iê-iê-iê, já te passou na cabeça? Pois não é um delírio. Foi no dia 17 de junho de 1967 em São Paulo. O percurso: do Largo São Francisco até o antigo Teatro Paramount, na avenida Brigadeiro Luís Antônio, onde se realizaria o programa Frente Ampla da MPB. Os manifestantes: os representantes da “verdadeira” MPB: Elis Regina, Jair Rodrigues, Zé Keti, Edu Lobo, MPB4, Gilberto Gil (?) e fãs universitários a fim de salvar muitas coisas, uma delas a pureza da música de ‘raiz’ brasileira, contra os ritmos estrangeiros e essas bárbaras guitarras elétricas. De bandeirinha do Brasil na mão e cantando o hino(Moçada querida/Cantar é a pedida/Cantar a canção/Da pátria querida/Cantando o que é nosso/Com o coração) lá foram eles para o teatro. Nara Leão e Caetano Veloso se recusaram a ir. Assistiram a tudo da janela do Hotel Danúbio e comentaram que aquilo parecia mais uma passeata integralista. ‘Tenho medo dessas coisas’, disse Nara. Essa passeata foi muito inspiradora de paródias de compositores do Tropicalismo, quando se ironizava uma certa impostação nacionalista da música popular. Na verdade, essa passeata foi uma jogada da TV Record para promover o programa O Fino da Bossa, liderado por Elis Regina, que vinha perdendo audiência para a Jovem Guarda e sua música americanizada. O estranho é que os dois programas eram da mesma emissora. Mas por que Roberto, Erasmo e sua turma ameaçavam tanto a MPB? Em primeiro lugar, a perda de audiência. Depois, o público deles era muito mais amplo: meninas de ginásio, operários, gente de subúrbio que começava a comprar os discos de iê-iê-iê. A música deles não tinha censura cultural. Era pra fazer sucesso. De repente, o descompromisso em salvar a cultura nacional possibilitava falar diretamente de assuntos que estavam reprimidos pelo pessoal ‘de cá’, com a afirmação de coisas atuais da vida: ‘O MEU CARRO É VERMELHO’. Nem Vandré nem Edu Lobo diriam isso, embora tivessem um carro que talvez fosse vermelho. Ou arrebatamento de paixão: ‘MEU CORAÇÃO É DO TAMANHO DE UM TREM’; havia um individualismo feroz de saúde brutal: ‘SIGO INCENDIANDO BEM CONTENTE E FELIZ, NUNCA RESPEITANDO O AVISO QUE DIZ: É PROIBIDO FUMAR’. Roberto Carlos disse isso. A primeira pessoa que superou essa guerra musical foi Jorge Ben. Enquanto as pessoas brigavam, ele já estava na Jovem Guarda, cantando uma música que dizia: ‘EU SOU DA JOVEM SAMBA’”.19

Ilustração 1: Passeata contra as guitarras: Jair Rodrigues, Elis Regina, Gilberto Gil e Edu Lôbo. http://2.bp.blogspot.com/-KZRFRDwT9Lw/TZubaTTQW0I/AAAAAAAAA4Q/adNh9uHB4mU/s400/elisreginaPasseata.jpg .

Nas Entrelinhas

As músicas de Simonal, hoje, seriam e são ainda tocadas sem grandes problemas. Nos “Anos de Chumbo”, em que se procurava nas “entrelinhas” das canções algum motivo para a “resistência”, saber de qual “lado” estava o cantor ou compositor, toda música era um “bastião” ou “traição”. A música também era “música de protesto”. Talvez um dos motivos do “assassinato” musical de Simonal estivesse no fato de que era uma das principais figuras da cultura brasileira, especialmente da televisão. Na medida em que as lutas sociais deslocavam-se para os meios culturais, universitários, até mesmo no interior da igreja católica, todos os espaços que permitiam, toleravam alguma presença da “oposição”, espaços ocupados pela juventude brasileira, Simonal era visto mais como representante do sistema a ser combatido, a partir de uma perspectiva utilitária, pragmática, da música e da cultura, submetidas à luta maior contra o Regime Militar. Mesmo que esta mesma visão pragmática, da música, em alguns momentos, também fosse o objetivo por parte de Simonal, simpático ao sistema vigente, seja em slogans, ou na inserção na indústria cultural brasileira e mundial.

Do ponto de vista da memória emocional, é impossível não lembrar dos episódios chocantes que envolveram os que lutavam por democracia, nos anos de chumbo20. 21.

Por outro lado, do ponto de vista da memória emocional, esquecer Simonal que marcou as lembranças da geração dos anos 60 e 70, época em que a televisão brasileira era entretenimento inovador, seria mais uma grande perda de parte da história pessoal de milhões de brasileiros.

Qual o lugar de Simonal?

Ao que parece, ainda há muitas razões para não aceitar Simonal. O relato de Marcelo Coelho, reproduzido a seguir, ilustrava bem essa dificuldade na aceitação de Simonal: não tinha “charme”; “metido”, “príncipe”, “ridículo”:

Com muita categoria, e sem espírito de pilantragem, o documentário "Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei" faz com o espectador aquilo que [Simonal] fazia com o público: leva-o de um lado para o outro, balançando para a esquerda ou para a direita, conforme a música. Durante a primeira metade do filme, não há quem não se renda ao charme de Simonal. Mas a palavra "charme" não expressava bem as qualidades [de Simonal]. (…) Mas Simonal parece "metido" demais para ser charmoso; está tão convicto do próprio sucesso que não se curva à necessidade de "seduzir" o público. [Simonal] age como se todo mundo já estivesse seduzido. [Simonal] surge no palco, como se desfrutasse de um privilégio – o de ser Simonal – que, generosamente, resolve então oferecer à admiração dos espectadores. As pessoas não ficam apenas encantadas com [Simonal]: parecem gratas a [Simonal], simplesmente porque Simonal, como um príncipe, deu-se ao luxo de aparecer. Mesmo nas cenas a que o passar do tempo confere uma aura de ridículo (Simonal dançando o “cha-cha-cha”, por exemplo), a superioridade do cantor não cede um milímetro. Uma espécie de soberania psicológica parece autorizar [Simonal] a fazer qualquer bobagem. (…). Numa cena histórica, vemos Simonal cantando ao lado de ninguém menos que Sarah Vaughan. E é a grande diva americana quem parece quase uma caloura encabulada, mal e mal ocupando o palco diante daquele brasileiro que, sem nunca ter aprendido inglês, conversa com [Sarah] com uma intimidade, com uma autoconfiança irresistível. O lugar muito específico da “pilantragem” de Simonal, entre as décadas de 60 e 70, talvez se explique a partir desse encontro entre a jazzista americana e o mulato carioca. O Tropicalismo exacerbava, por assim dizer, o nosso próprio exotismo – fazendo da cultura brasileira, com suas bananas, carnavais e Chacrinhas, uma espécie de caricatura crítica daquilo que os americanos viam em nós, através de Carmen Miranda e do Zé Carioca. No “patropi” de Simonal, o tropicalismo se inverte. Negro sem ser sambista, namorando loiras e passeando de carrão no Leblon, é como se [Simonal] fosse um grande “entertainer” americano “tropicalizado”, “canibalizado” pelo ambiente carioca. [Simonal] açucarou a imagem (que intimidava os brasileiros de 1960) de um negro no topo da pirâmide social. O que [Simonal] tinha de “metido” e arrogante, aos olhos da época, era contrabalançado por essa atitude de deboche, de não estar levando o papel a sério, que é tão clara nas suas apresentações. Não por acaso, [Simonal] cantava músicas tradicionais, como “Meu Limão, Meu Limoeiro22”, com ginga americana. O equilíbrio entre “vir de baixo” e “estar por cima”, obtido genialmente por Simonal em sua carreira, transforma-se em colapso ético e em tragédia individual, depois. Julgar é fácil, ter pena é fácil, e sem dúvida é mais difícil perdoar [Simonal] que, ao que parece, não teve o senso político ou a disposição de arrepender-se a tempo. Pensando nos inúmeros e muito calibrados depoimentos do filme, acho que Simonal associou o seu sucesso profissional a uma atitude de onipotência; andar de Mercedes era equivalente a se dizer favorável à ditadura, amigo dos homens do SNI… Não era isso, afinal, estar no alto da pirâmide? Ensinaram-lhe que não. Uma pessoa mais equipada politicamente talvez tivesse meios de reconfigurar a própria imagem. Isso não aconteceu; depois de tanto sucesso, Simonal teve de voltar para o lugar de onde veio: o lugar de baixo. Mas não sem ter marcado, também, sua presença na história da música (e da sociedade) do Brasil. 23. 24

1MestreemHistóriadoBrasil.

2FERREIRA, Gustavo Alves Alonso. “Quem não tem swing morre com a boca cheia de formiga”: Wilson Simonal e os limites de uma memória tropical. Dissertação de Mestrado em Historia. UFF. Niterói. 2007, p. 17. Disponível em: http://www.historia.uff.br/stricto/teses/Dissert-2007_FERREIRA_Gustavo_Alves_AlonsoS.pdf .

3DINES, Alberto. Injustiça Incômoda. Editorial do Observatório da Imprensa na TV nº 506, exibido em 9/6/2009. http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=541IMQ006 .

4Arthur Poerner. Citado por: Lilia Diniz. Observatório da Imprensa NA TV. “Wilson Simonal volta à mídia”; 10/6/2009. http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=541IMQ006 .

5FERNANDES, Florestan. Ciências Sociais: na ótica do intelectual militante. Estud. av., São Paulo, v. 8, n. 22, Dec. 1994. Available from http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40141994000300011&lng=en&nrm=iso . access on 22 June 2010. doi: 10.1590/S0103-40141994000300011.

6http://asvinhasdaira.wordpress.com/2008/02/14/manifestodopartidocomunista-15-olumpenproletariadoeasuacaptacaopelasforcasreaccionariasocorpodeactivistasdaextremadireita/ .

7http://pt.wikilingue.com/es/Lumpemproletariado . http://es.wikipedia.org/wiki/Lumpemproletariado .

8http://www.opiniaopopular.com/2006/11/danecessidadedaeliminaodo.html . http://www.vanguardapopular.com.br/portal/comentariopopular/132-danecessidadedaeliminacaodolumpenproletariadoreacionario .

9Winston Churchill. Em discurso na Casa dos Comuns, em 11 de Novembro, 1947. http://pt.wikiquote.org/wiki/Winston_Churchill .

10"[Simonal] tinha três Mercedes. Era demais para um negão", ironizava o cantor Tony Tornado. http://oglobo.globo.com/cultura/mat/2009/05/13/aposseteanossaifilmesobresimonalcantorqueatingiuaugefoibanidodamemoriadopais-755849547.asp .

11Josué de Castro. Geografia Da Fome: O Dilema Brasileiro: Pão Ou Aço. Rio de Janeiro: Record, 2001, p. 136-137.

12“Simonal – Ninguém sabe o (dedo) duro que dei”. Artigo de Carlos Machado, poeta e jornalista, exclusivo para o blog Diário Gauche. Terça-feira, 09 de junho de 2009. http://diariogauche.blogspot.com/2009/06/simonalninguemsabeodedoduroque.html. http://www.lucianopires.com.br/idealbb/view.asp?topicID=7969.

13FARIAS, Sérgio. http://www.bancariosrjes.org.br/site/culturapop/simonal.htm. http://opiniaoenoticia.com.br/cultura/wilsonsimonalumassassinatoartistico/ .

14http://musicaemprosa.musicblog.com.br/264422/WilsonSimonaleSarahVaughan/ .

15http://www.rollingstone.com.br/secoes/novas/noticias/6976/ .

16CEIA, Carlos. ENGAGEMENT. Termo francês que traduz o empenhamento político de um escritor ou de um intelectual. Historicamente, o conceito é uma herança do intelectual formado pelo iluminismo e pelo marxismo, porém foi Jean-Paul Sartre quem, no século XX, mais vivamente relançou o debate sobre o estatuto do intelectual “engagé”. Disponível em: http://www.fcsh.unl.pt/invest/edtl/verbetes/E/engagement.htm .

17“Elis Regina, a Pimentinha, também foi roqueira”. http://zecabarroso.blogspot.com/2011/04/elisreginapimentinhatambemfoi.html .

18“Abaixo a guitarra elétrica”. http://victorferreira.blog.br/2010/08/19/abaixoaguitarraeletrica-2/ .

19 Sofia Carvalhosa. “Essas Bárbaras Guitarras Elétricas”. Primeiro Toque nº 11 (out/nov/dez 1984). http://taratitaragua.blogspot.com/2011/01/passeatacontraguitarraeletrica-1967.html .

20http://celsolungarettiorebate.blogspot.com/2007/05/vejaoabusodepoderdagrande.html .

21http://www.torturanuncamaisrj.org.br/medalhaDetalhe.asp?CodMedalha=135 .

22Versão de Carlos Imperial para uma tradicional música americana. LP “Vou Deixar Cair…”, de 1966. FERREIRA, Gustavo Alves Alonso. “Quem não tem swing morre com a boca cheia de formiga”: Wilson Simonal e os limites de uma memória tropical. Dissertação de Mestrado em Historia. UFF. Niterói. 2007, pp. 11-31. Disponível em: http://www.historia.uff.br/stricto/teses/Dissert-2007_FERREIRA_Gustavo_Alves_AlonsoS.pdf .

23Marcelo Coelho. “Simonal, de Alto a Baixo. O equilíbrio entre ‘vir de baixo’ e ‘estar por cima’ transforma-se em tragédia individual”. Folha Ilustrada. Folha de São Paulo. São Paulo, quarta-feira, 03 de junho de 2009. http://www.companhiadascordas.com.br/blog/2009/06/ . http://www.geledes.org.br/emdebate/simonaldealtoabaixodp1.html . http://pelaluzdosmeusolhos.blogspot.com/2009/06/osinocentesdemaossujasdaimprensa.html .

24Nelson Rodrigues de Souza. “Os Inocentes de ‘Mãos Sujas’ da Imprensa”. http://pelaluzdosmeusolhos.blogspot.com/2009/06/osinocentesdemaossujasdaimprensa.html

Tagged with: